Pinturas e textos – Luciane Medeiros


O corpo marcado, escrito em poesia, amado e por vezes descuidado, documenta as pinceladas aguadas. São como acréscimos ininterruptos, marcados sobre a argila úmida. Sobre elas, sensações onde não há nós e nem nomes. As horas não são faróis em olhos e nem são sãs.


A entrega é sempre um arriscar. O amor em cores que vai e vem. Sensações, sentimentos, imagens que se tornam possíveis, perdem a dimensão incomensurável do insuportável e se transformam em coragem.


A mão quase alcança e por pouco agarra o ar. São redemoinhos, misturas de sentimentos sem medidas, sem previsões. Suar cores, destorcer reflexos, plasmar caminhos. O amor não tem regras. Viver é como dançar entre a corda e o vento.


As cascas caem e ecoam sem época. Só resta sentir os sabores esquecidos sobre a mesa. O amor é um estado que persiste para além do tempo. Não é meu, não é seu, mas está no encontro. É o que move de mim em você e de você em mim.


Respiração, coração, pulmão, expansão. O sangue percorre células, circula, abre caminhos e provoca movimentos. É fluxo e energia, dança nas entrelinhas, jogo contínuo de sombras e de luzes.


Traçados, desenhos, fluência de cores, palavras. Quanto mais adentro em mim, mais indirigível me torno. Lanço para fora o que jaz dentro. Agulhas e linhas, urgência calmante. Tecido invisível, rarefeito dos sentimentos. Não deverá estar por um fio o que no mar deságua.


Irei roubar do tempo o tempo que me pertence. Não se revela o que não existe. Os poros suam, suam, suam e se perguntam por que chove, mas as lágrimas simplesmente caem. É preciso deixá-las fluir numa transgressão ao senso comum.

Folhas, brotos de bambu ao relento, inquebráveis como as sutilezas vastas do encontro com o destino. Sentir mais do que ver poderia ser chamado milagre. A vida brinca de forno, queima os pés e quentes são as palavras recém-nascidas no vaso criativo, o útero.